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27-02-2010

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Já não gosto de ti. percebi-o hoje por entre os fios dos novelos de lã espalhados no chão da sala, ao lado do sofá. Que irritantes fios de novelos, que se enrolam e se prendem nos pés e nas pernas. chiça! De quem são estes novelos? Eu nunca tricotei. E é actividade que me chateia. E o que são estas nuvens lá fora, que quase parecem novelos cinzentos enrolados no céu cinzento escuro? Estes do chão da sala, que estão mesmo ao lado do sofá, são pretos e vermelhos. Se eu fosse gato! Eu nunca fui de chuva, mas hoje gosto dela. Desde que ela me disse que gosta de nuvens e de frio. E de chuva. E já não gosto de ti. E sou de chuva. Quando é que este tempo muda? Nunca mais chega o tempo quente!

21-02-2010

domingo.domingo

domingo é um dia certo
e incerto, conforme a luz que passe entre as nuvens cinzentas

é feito do longe e do perto
e o céu sempre fechado, encrespado de chuvas poeirentas

são cruas as ruas até ti
o teu chão é uma janela à beira do parapeito
precipicio de tudo e defeito
e do jeito que és, nunca voltarás para mim

é estupidez, é paixão,
que eu não sei se é isso ou não
mas canto-te a ti nos domingos.

20-02-2010

coisas pequeninas

É agora que vejo lá longe a tua mão sobre a minha e os dois corpos sentados numa pedra de muro ancestral. Uma história resumida num papel completamente queimado. E um cigarro e um carro. E um sonho. E os dias todos e as noites. Já foste. E o teu quarto, o teu cheiro e o cheiro do quarto. E a cidade que eras. Quando sentia a cidade sem ti, o sabor era estranho. Desconfortavel e frio, de ausência. Eu nunca fui a cidade sem ti. Nem os prédios, nem as ruas, nem o parque e o sol. Nunca o foram sem ti... E as canções. As músicas todas e um filme. E o sabor do teu corpo pequeno. E hoje ainda não consigo dar o teu nome a este texto pequeno. Feito de coisas pequeninas.

"Samba em Prelúdio"

15-02-2010

foge

ele foge sempre que pode do que foge a correr. e encontra na força da continuação uma fuga que lhe apaga as certezas daquilo que quer. e quando julga querer as certezas é tarde e já arde lá longe do que quer que fugiu. e sentiu uma ausência tão grande que só lhe resta esperar que um dia o chão não lhe fuja por baixo dos pés e que os dias não lhe fujam da frente e que um dia ele próprio não fuja a correr.

01-02-2010

costumava não gostar de finais felizes II

e só queria ter-me despedido.

costumava não gostar de finais felizes I

descobri que detesto os finais tristes.

20-01-2010

hoje apetecia-me pôr-te em palavras

falta de originalidade talvez.

e estar naquilo que vês. e não vês.

pousar na tua janela e ficar,

todo empoleirado

e dormir ao teu lado.

acordar.

 

despir a roupa toda que trago

e escrever um só verso

como este. e o outro que vem.

se eu não fosse tão vago.

e tocar-te também.

 

percorrer um caminho

uma estrada.

uma serra só nossa coberta

cobertor feito de azul

uma pena da tua almofada

um lençol

ser a roupa estendida na chuva

e uma noite comprida de sol.

 

deparei-me, hoje sim.

com um sinal vermelho ao fundo da rua

sou um canteiro no cruzamento com a tua

a brotar uma flor e um som que é de Fim.

 

encontrei-a no cruzamento das linhas

e uma linha bastava.

escreveria acerca da idade.

e hoje apetecias-me.

que falta de originalidade.

06-01-2010

jazes

quando eu morrer, quero morrer como um homem. quero morrer como tu.
não na mente moribunda. mas na força. mas na insistência.
e na teimosia de te agarrares a esta vida. mesmo que de merda.
mesmo com este mundo de merda.
não há nada para além da morte. e eu não sei lidar com a morte.
hei-de aprender a lidar com a vida.
invejo-te a coragem inconsciente de um corpo que manteve uma vontade qualquer.
quando eu me for, não me quero ir assim aos bocadinhos.
não me quero ver prostrado numa cama. porque eu tenho medo.
já tu, nunca temeste. e seguraste-te a tudo.
e a ti. e a mim. e a nós. e a todos.
quero morrer com a tua mão agarrada à minha.
e quero a vida toda que me mostraste.
quero o teu sorriso agarrado sempre ao meu corpo.
quero a força dos teus braços e a vontade das tuas pernas.
há já cinco anos que tenho vindo a sentir saudades de ti.
e vou sentir-te para sempre.

29-12-2009

.há.muito.tempo.

até sempre é uma serpente.
enrolada ao meu pendente.
pescoço de homem cego.
e o medo é uma coragem parecida.
à viagem que eu temo sem pavor.

uma dor parecida a esta,
só aquela que me resta do Amor.

breve rasgo de emoção,
sentirei na tua mão,
se um dia te encontrar.
encostada a uma paragem,
como que a pedir viagem.
que faremos na serpente.
enrolada ao meu pescoço.

soube hoje de repente.
de deitado em minha cama.
duma lança já espetada.
no meu peito.
e eu feito. corpo morto.
já de cego e todo torto.
esquecido e enrugado.
encharcado em ilusões.

abraçarei melhor mulher.
se à janela ela vier,
dizer-me coisas a respeito
de tudo aquilo que eu já sei.

é uma merda, a consciência.
se é fodida essa insistência
e a certeza das palavras.
é um saber. é um esperavas.
e eu não espero.
encontrei-te.

há muito tempo.