23-10-2007
fade out
Quisera escrever eu no escuro sem precisar de palavras escritas. Quisera eu que a luz fosse feita de escuro e que o duro tormento da inexpressão do confronto ao papel se apagasse com o interruptor para baixo. E que quem pensa e não escreve, escrevesse sem pensar duas vezes.
Ou que a cada madrugada saíssem só textos de fresco escritos a quente. E que o centro dos mundos fosse um conjunto total de muitas cabeças. E que no sonho de cada uma delas, comandássemos todos as ideias de todos.
Quem me dera que todos vivessem somente para todos, mas que ao acender de outra luz uma vela surgisse de dentro do escuro e voltássemos sempre a esse ponto perfeito de letras pensadas e escritas. Mas que no papel das ideias ficassem abaixo-assinadas por quem de direito.
E que ao soprar para a vela fosse tudo cumprido! Ainda que às escuras e ainda que o escuro não durasse nem cinco minutos que fossem sem luz…
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fugidio
Luz, mão aberta e a mão nessa luz
Punho fechado de ideias dispersas
Sangue a ferver em pouca água no copo
Acossado por entranhas estranhas de corpos pesados
Sem vontade mais a menos e a cabeça que dói
Corpo imóvel de boneco à janela vidrada
De cima em ponto picado
(voz em recusa, a escusa é vizinha do lado)
Tacanha tamanha sinceridade de movimentos
Ou os lentos planos de transição de discurso
(o fio que não puxas é o mesmo que se te enrolará mais tarde ao pescoço)
Ou o caroço da ferida contida dois tempos
Ideais acordados de dentro do luto
(não vás tu deitar-te mais cedo sem veres a rua a saltar-te para cima)
Não esperes tal facto mais tarde cantado
À janela de baixo em ponto de contra picado
E não tardo a inventar mais conversa
A tua mente perversa inspira estas letras sem nexo
O cigarro a aguardar outras horas
(e é finalmente minuto perfeito de pôr às avessas a luz outra vez)
Numa mão e na outra fechada uma frecha de cor
Iluminada no escuro, pintada de branco escarlate
Com sabor a tomate esmagado contra a voz que vem cá de dentro
Do centro de toda a junção de ideias concretas
Discretas em si e apagadas mais tarde…
(está essa luz persistente)
E dormente qual nervo picado e cansado de arrufos suaves
Abanemos o cesto e tiremos as compras
Coloquemos pimenta e leiamos o verso instrutor
Formador de cabeças pensantes iguais às demais estreantes
(deixa estar. vou dormir)
Inchem-me os olhos de impressões lacrimejantes!
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