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02-05-2012

dia 2 de maio, dia do trabalhador

temo. tenho medo da morte. não da dos corpos, mas da do pensamento. temo. tenho medo da morte da filosofia. temo. tenho medo que os dias sejam só mais um dia e que os anos não sejam mais que a soma de todos os dias iguais. mecânicos. tristes. cinzentos. trabalho, precário. descontos a cinquenta por cento p'rá casa. ou p'rá vida do mês. de consumo

temo. tenho medo que acabem com a música. que me tirem a música. que nos tirem a música. que eu não pago, confesso, mas que ouço. que conheço. mas que pago em concerto. não consumo, confesso, mas que ouço. porque quando os músicos são músicos, não se importam com discos vendidos, consumidos. guardados, deitados fora. reciclados. importam-se com a música que fazem que toca nos outros.

temo. tenho medo que acabem com o cinema. temo o fim do cinema e da força que os filmes me dão. que nos dão. não sei se tenho a arte para um dia fazer, nem é isso que temo. não quero é que me tirem os filmes. nem os filmes de sala, nem os da sala de estar. quero filmes, como os que vi hoje. que nos ensinam sobre nós e a nossa condição. e o amor. ou a não gostar de onde vivo. mas a mostrar-me onde vivo. a olhar para mim e para este país e este mundo em que estou. filmes de verdade e com verdade, que com isso dão luz a que um dia isto mude. ou apenas a sonhar com isso.

temo. tenho medo que um dia me tirem a palavra. que me queimem os livros e as ideias qual farenheit 451. que a crítica a isto seja vista como afronta aos valores que por uma carga de água qualquer, temos todos de respeitar. temo isso.

mas ontém, dia 1 de Maio e do trabalhador de 2012, dei comigo a ter medo acima de tudo, do consumo. já se deixou há muito de criticar o consumismo. não falamos disso. ele hoje é mais "crise" e "dívidas" que "temos de pagar" como uma inevitabilidade maior que todo e qualquer direito alcançado por gente que ao saber disto em que estamos daria voltas nas tumbas! eu tenho para mim que o consumismo, que nos é dado como uma liberdade de escolha (e de compra), não é mais que uma arma poderosa daqueles que nos querem mansinhos, ou não, calados e em filas, ou não, a brigarmos uns com os outros pelo bem essencial que queremos todos consumir. esquecendo-nos nós que assim nos estamos, antes de mais, a consumir uns aos outros e a consumirmos todos cada dia que passa. e que passa. e que passa. e isto passa. e nós cada dia mais velhos e gastos, cansados. isto passa. e Eles consomem-se todos e riem por dentro por nos verem a nós consumidos, até ao tutano. já mortos, cansados.

mas hoje, dia 2 de Maio e do trabalhador, aquele de todos os dias, espero e anseio pelo dia em que nada de nada se consuma e que tudo se resuma e consuma apenas a isto. ao homem e às suas ideiais. já estivemos perto? só sei que estamos cada vez mais longe. a menos que não matem a filosofia, a música, o cinema, as palavras, os livros e os ideais...

(voltemos então ao início do texto. vou reescrever. agora com as ideias mais claras.)